Alterações climáticas, mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades… – Opinião Manuel António Costa Silva

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Póvoa de Varzim, terra à beira-mar plantada, com um pé na terra e outro no mar. No que ao mar diz respeito, fomos em tempos o maior porto de pesca do Norte, tendo a maior comunidade piscatória do país com um passado intrinsecamente ligado à história da cidade. E do mar, além do peixe para consumo, principalmente nas comunidades que inicialmente eram lugares como Aver-o-Mar e Aguçadoura das Freguesias de Amorim e Navais respetivamente e na Freguesia de Estela, a pesca do pilado constituía forte atividade económica como o comprova os postos da Guarda Fiscal instalados estrategicamente nestas terras para cobrança do respetivo imposto. Mas se a pesca no nosso porto tem perdido fulgor, surgindo a marina para captar a entrada de um turismo seletivo, e pescar novas receitas, também a pesca da costa já não existe nas nossas freguesias com a quase extinção do caranguejo denominado pilado, tão procurado para a fertilização dos solos do Entre Douro e Minho.

As gentes encontraram outras atividades que tornaram rentáveis e que tão bom nome dá à Póvoa: a horticultura, que no litoral por arte e engenho do homem conquistou às dunas terras que tornaram férteis através dos campos masseira e mais recentemente com os abrigos denominados de estufas; e a pecuária de produção de carne e leite nas encostas dos montes e interior do concelho com produtividades que nos tornam referência nacional.

Mas se a cidade, hoje, já não depende da pesca enquanto instância balnear, de turismo e serviços, da terra vivem milhares de poveiros, com uma indústria que se desenvolveu à sua volta, tendo um papel forte na manutenção da paisagem que tanta gente nos traz a visitar. A limpeza da floresta para a cama dos animais, e posterior fertilização dos campos, a limpeza das praias ao longo do ano das mareadas de sargaço, tiveram sempre no agricultor o prestador de um serviço público que nunca foi reconhecido, tal dado como adquirido.

Hoje os incêndios são uma preocupação, porque a pecuária intensiva não depende dos matos para a cama dos animais e tem outras formas de assegurar o bem-estar animal. A limpeza das praias, principalmente quando os veraneantes se debatem com as moscas e o cheiro do sargaço em decomposição, são uma dor de cabeça para os agora responsáveis das concessões das praias, pois agora a horticultura tem outras fontes de fertilização, e as dificuldades legislativas criadas para a recolha e uso do sargaço não valem o esforço e o trabalho da empreitada.

Hoje temos no nosso concelho um Centro do Clima, mais que um observatório da constatação que a ação humana contribui para as alterações climáticas, que possamos também reconhecer a capacidade de regeneração que o nosso planeta tem, quando apoiados os procedimentos corretos pela sociedade. A pesca e a agricultura serão, com certeza, parte da solução e não o problema. A sustentabilidade que os nossos antepassados nos transmitiram, no aproveitamento dos rejeitados e sobras alimentares, as práticas silvícolas na nossa floresta, a fertilização como parte de tratamento do solo como um ecossistema vivo, o uso da rega ao abrigo do ciclo da água, com instrumentos de medição e precisão numa agricultura que tem como desafio produzir alimentos saudáveis para uma população mundial em exponencial crescimento. E, em conjunto, pensar o futuro! Pois isso, é já amanhã… Opinião Manuel António Costa Silva.