Dia do livro e dos direitos de autor – Opinião de Valter Hugo Mãe

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Nas leituras que fiz acerca das culturas dos povos originários do Brasil fascinou-me descobrir que é comum verem a humanidade como co-criadora a par da figura divina. Como os deuses, nós não ficaríamos reduzidos à condição da criação mas seríamos capazes de ser criadores também, gerando no Mundo aquilo que a divindade não geraria. Esta visão é absolutamente distinta da nossa, europeia, que se entrega a uma espécie de inelutável destino. Para os originários do Brasil, não há condenação, apenas a benigna evidência de que podemos existir e favorecer a harmonia.

Para quem escreve isso torna-se comovente, porque encontrar a convicção de que não estamos apenas submissos a uma ordem exterior mas somos, nós mesmos, indutores de uma ordem nova, podemos ser o anúncio original de uma
humanidade a definir-se, é entender que nas nossas mãos pousa o poder absoluto do destino. Quem cria arte parte da utopia de rever tudo, como se convidasse o mundo para dentro de outro mundo, ajustado, maravilhado, desmascarado.

Não são, por isso, de somenos importância os Direitos de Autor. Eles são o reconhecimento desse gesto que corre pela vertigem de colaborar com a divindade. Um gesto que não se basta e se faz premente para aumentar o espectro do que é ser gente. Como o deus que possa existir, o autor vive na ansiedade de fazer mundo, de fazer gente, não pelo concreto de fazer nascer, mas pelo concreto de fazer dos que nasceram gente efectiva, gente de verdade, potenciada no pensamento e nas emoções como se transformasse meros animais em humanos de esplendor.

Valter Hugo Mãe