Lição de Política

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DAVID  SANTOS

Só quem esteve desatento na noite de 4 de Outubro pode hoje estar surpreendido com o que ocorreu ao longo das semanas seguintes e com as consequências políticas daí resultantes.

Nessa noite não escutaram os discursos de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa? Não observaram o sorriso aberto de António Costa quando entrou na sala para a sua declaração e o conteúdo da mesma? A postura e as intervenções destes três protagonistas transmitiam uma imagem de derrota? Não se aperceberam das mensagens que todas essas intervenções continham? É evidente que todos eles souberam fazer imediatamente a leitura dos resultados e avaliar o caminho que se abria.

Mais! A reacção que os três demonstraram só era justificável no caso de já terem uma ideia muito concreta de como poderiam percorrer esse caminho. Todos os sinais que então deram levam a crer que antes das eleições tinham estudado os possíveis cenários e sobre eles já teriam reflectido em conjunto, avaliando hipotéticas soluções.

É óbvio que todo esse trabalho prévio dos partidos de esquerda foi feito com a discrição que se impunha. E, provavelmente, terão sido analisados apenas aspectos gerais de uma possível solução, que estaria sempre condicionada pelos resultados efectivos que viessem a acontecer, não estando as questões mais concretas ainda delineadas. Nas semanas seguintes às eleições houve que formalizar as conversações e clarificar todos os detalhes.

Só a direita é que não compreendeu o que se estava a passar e continuava inebriada com as taças de espumante abertas naquela noite. Julgando que as declarações de Costa não passavam de bluff, procurou encenar uma negociação e, em determinado momento, tentando demonstrar uma força que não tinha, informou que não falaria mais com o PS, pensando que assim o colocava entre a espada e a parede. Ou seja, retomou a postura habitual dos últimos quatro anos, em que sempre afirmou que não precisava do PS para nada. Não ter a humildade de continuar as negociações foi o seu grande erro. Enganaram-se! Quando deram por ela, até Portas chegou à situação ridícula de oferecer o seu lugar de vice a António Costa, numa tentativa desesperada para não perder o poder.

Nas últimas semanas Passos e Portas, e até Cavaco, receberam uma lição de política. A sua arrogância e radicalização ao longo destes quatro anos, que se acentuaram nas semanas mais recentes, é que os conduziram à situação actual. Andam agora de cabeça completamente perdida, com declarações inapropriadas e altamente prejudiciais para o país, demonstrando uma enorme irresponsabilidade e falta de sentido de estado que, só por si, justificam o seu afastamento. São eles que transmitem instabilidade para o exterior.

PSD e CDS têm tido muito mais dificuldade em digerir a nova conjuntura do que o que se verifica com os mercados financeiros. Estes mantêm alguma serenidade, sem oscilações expressivas dos juros da dívida soberana (que até já têm descido) e com a bolsa portuguesa a acompanhar de perto o que se passa com as restantes. Para azar do senhor que no meio da crise foi de férias! Ele, que atrasa a sua decisão o mais possível na esperança de que apareçam sinais negativos dos mercados, para justificar qualquer posição à revelia da Constituição.

O tal senhor que dizia que tinha estudado todos os cenários e para todos tinha a solução. Depois foi o que se viu. Discursos inflamados, ameaçadores, divisionistas, muito prejudiciais para o país pela imagem que projectam no exterior, denotando uma enorme falta de sentido de estado. Na verdade não sabia o que fazer. Depois foi ouvir personalidades escolhidas a dedo para lhe darem as respostas do seu agrado, parceiros sociais, banqueiros, e, pelos vistos, até as cagarras … Ao arrastar a decisão na tentativa de encontrar argumentos para favorecer o seu partido, é neste momento o principal responsável pela instabilidade e incerteza que poderão existir.

 

PS: Hoje começamos a compreender melhor a manipulação e as mentiras utilizadas por PSD e CDS na campanha eleitoral. Lembram-se do anúncio, na semana anterior às eleições, de devolução de 35% da sobretaxa do IRS? Qual o valor que agora é anunciado? Qual? 0%! É que as eleições já passaram! E a declaração de que o dinheiro metido no Novo Banco nada ia custar aos contribuintes e até estava a render juros? Hoje sabemos que é necessário injectar muito mais. Quem vai pagar, quem é? E quanto à privatização da TAP? Não é estranho descobrirmos agora que o risco da dívida existente continua a ser assumido pelo Estado? Afinal que privatização é esta?

 

Nota: o autor escreve de acordo com a antiga ortografia