Que Presidente queremos nós?

EDGAR TORRÃO

Ruminei o pensamento por várias vezes. Devo escrever o que penso sobre as presidenciais ou deixo andar como a maioria da população aparenta fazer? Dedico algum tempo do meu final de noite para me sentar à frente do computador ou deito-me no cadeirão e tento acabar o livro tão interessante que os meus sogros me ofereceram no Natal? O assunto é demasiado sério para nada se dizer, pelo que venci a vontade que tenho de terminar o livro (quem sabe madrugada adentro) e sujeito-me à crítica sempre generosa e atenta dos leitores.

Que presidente queremos nós para o nosso país? Não sei. Mas sei interpretar a campanha política dos principais protagonistas. Por razões pouco democráticas de economia deste texto, apenas refiro os candidatos principais nas sondagens, Edgar Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Marisa Matias e Sampaio da Nóvoa.

Edgar Silva, num panfleto recebido de supetão no final da eucaristia de domingo, escreveu aos portugueses que se compromete “com políticas que recusem a submissão do País a ditames e políticas atentatórios dos direitos e interesses do Povo Português e da democracia”. O problema é que o meu homónimo Edgar não consegue deixar de considerar a Coreia do Norte uma ditadura. E quem é incapaz de denunciar um dos piores regimes ditatoriais do mundo não serve para presidente do meu país. Reconheço mérito no candidato, quando consegue trazer para o discurso de campanha os pobres e excluídos, e se o rumo da história estará marcado pela transformação comunista da sociedade, creio que Edgar Silva será, a muito curto prazo, chamado para funções ainda mais relevantes no PCP. Mas para presidente da república, não!, obrigado.

Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa confesso que me faz muita confusão a esquizofrenia mediática que promoveu, num solitário comentário político sem contraditório desde os tempos idos da TSF, que eu ouvia religiosamente. Não obstante, é um brilhante professor de Direito, dedicado a causa sociais e com profundo conhecimento do país. Durante anos, Marcelo sempre se dedicou a contactar com todo o tipo de público, desde movimentos jovens da Igreja Católica a festas no Pontal, o professor Marcelo conseguiu o pleno. Não duvido que tem todas as condições para exercer funções e, a acreditar nas sondagens, estará muito perto de ser eleito à primeira volta. A dúvida que cinzenta o céu radioso de Marcelo é…o próprio Marcelo. As suas tolices épicas, as brincadeiras, a marmita descoberta num quartel de bombeiros, a famosa sopa de Portas (se quiserem vichyssoise), tudo isso faz com que Marcelo seja o seu principal adversário. Basta ler o magnífico retrato de Marcelo que Maria João Avilez faz dele no Observador para compreendermos os tempos divertidos e angustiantes que teremos pela frente com Marcelo presidente. Se for eleito, claro. E sem o meu voto.

Maria de Belém seria a minha candidata natural, não fosse o inconveniente episódio desta não conseguir perceber que o facto de ter sido consultora de um grupo privado de saúde e presidente da comissão parlamentar de saúde em simultâneo, apesar de legal, é errado. Pode, inclusivamente, ter sido considerado eticamente aceitável face ao normativo do Parlamento, mas o facto de ser legal não faz com que seja aceitável. Nestas circunstâncias, e tendo Maria de Belém recusado em entrevista à Antena 1 em aceitar que possam subsistir dúvidas sobre a matéria ética, fui forçado a reconhecer que não posso votar nela para presidente do meu país. É um exercício difícil de fazer, é uma ex-presidente do PS que sempre respeitei e respeito, mas penso que o futuro do país passa cada vez mais pela total independência dos políticos em funções. Quero um presidente que seja capaz de romper com práticas que foram aceitáveis, no seu tempo, mas que devem e podem ser questionadas face a este tempo de transformação e mudança que atravessamos. Tenho pena e é doloroso escreve-lo. Gostava muito de ter uma mulher à frente dos destinos do meu país.

Quanto a Marisa, batalhadora e séria nos argumentos, está a fazer uma campanha muito aguerrida e que vai surpreender pela positiva em termo de score eleitoral. Mas, e há sempre um mas, o “meu” presidente tem de ter outra amplitude política e maturidade. Também não.

Resta-me Sampaio da Nóvoa. Ainda não me convenceu, mas ainda tem uma semana para o fazer. Apesar da simpatia que nutro pelo candidato, ao qual não é alheia a minha amizade com alguns familiares, confesso que ainda não percebi bem quais são as linhas mestras da sua candidatura. No início da sua campanha eleitoral cortou cerce à esquerda, quase que excluindo o centro e a direita do país, ou seja metade do país (ou mais). Genuinamente convicto dos valores republicanos, gostava de ver Sampaio da Nóvoa empenhado em afirmar Portugal no mundo, sem medo para assumir que ser Presidente da República de Portugal implica acima de tudo estar ao serviço da Pátria como primeiro garante da Constituição. Influenciando políticas activas de integração social de todos os portugueses, cativando investimento externo e promovendo a excelência da investigação portuguesa. Quero um Presidente com um discurso mais positivo, mais incisivo e menos refugiado na beleza da prosa ou da poesia que, quando excessivas, desviam o pensamento do essencial. Quero um Presidente que saiba promover as forças armadas do país e que a valorize, tecnologicamente e em meios humanos. Que saiba defender a política externa de Portugal sem qualquer necessidade de clamar por um referendo nacional sobre matérias europeias. Quero um presidente que clame por justiça, que exija equidade nas causas sociais e que não se refugie em lugares comuns e em linguagem cifrada. Quero um presidente, pois nos últimos 10 anos tivemos uma família a habitar o Palácio de Belém e só nos deu motivos para estarmos zangados com a mais alta figura da Nação!

Ainda tenho uma semana para decidir.

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