“Toda a gente está ansiosa por ter uma atividade, um contacto físico”

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No Agrupamento Escutista de Amorim, o confinamento não impediu as reuniões frequentes através das plataformas online e, assim que foi possível, atividades presenciais, sempre com todos os cuidados. O chefe do agrupamento, João Santos, explicou como é ser escuteiro durante a pandemia e o que conseguiram realizar no ano passado. Um ano que se previa de festa e de celebrações acabou por ser o contrário. João Santos, chefe do Agrupamento de Escuteiros 440 S. Tiago de Amorim, conta que 2020 começou na melhor forma e que “arrancamos muito bem”. O Agrupamento celebrou, no dia 5 de janeiro do ano passado, 45 anos desde a sua fundação, levada a cabo em 1975 pelo chefe José Gonçalves Agra, “que ainda está vivo e faz parte dos nossos quadros de pessoal, mas não está no ativo”, e pelo padre Joaquim Figueiredo, pároco na altura.

No aniversário, “fizemos uma grande festa, convidamos os agrupamentos todos, tivemos muitos convidados”. O chefe João orgulha-se até de dizer que “tivemos o luxo de ter cá o nosso chefe nacional, que é um amigo nosso”. Mas foi a única festa que conseguiram realizar; pouco tempo depois, em março, a pandemia surgiu em Portugal, “montou o acampamento e ficou”.

Foi aí que “isto começou a desequilibrar, entrou no ponto em que entrou e nós também tivemos de abrandar”, afirma. “Houve ordens da junta central para fechar”, e foi preciso obedecer: o presencial ficou parado, mas a vida do agrupamento não. As reuniões, embora em outros termos, continuaram a existir porque o agrupamento fez “tudo por tudo para reunir online”.

E, quando houve o desconfinamento, não hesitaram em tentar, “lentamente”, a voltar a reunir. A retoma das reuniões presenciais “foi um teste: primeiro fizemos uma reunião de pais para procurar entender as suas ideias”, explica o chefe. Nessa reunião, a conclusão foi que “tanto os pais como os miúdos mostraram que estavam cheios de estar em casa, de estar fechados”. Por isso, “fomos libertando aos poucos”.

Escutismo em tempo de pandemia

Nessa altura, começaram primeiro com os mais velhos, a secção dos Caminheiros, dos 18 aos 22 anos. Com eles, “entraram também os pequeninos”, os Lobitos, dos 6 aos 10 anos. As duas outras secções, que compreendem as idades entre os 10 e os 18 anos, “foram por arrasto, lentamente começaram a abrir”. A maior dificuldade surgiu mesmo com os adultos, “que não aceitaram mentalmente muito bem” a retoma, adianta João Santos. No entanto, “tivemos de gerir as coisas conforme as ferramentas que tínhamos”.

Com todas as restrições e recomendações da DGS, conseguiram, no verão fazer uma atividade em agrupamento. “Tínhamos preparado um acampamento, um passeio com os pais para a celebração do aniversário”, conta João, mas acabaram por mudar os planos e optar por uma atividade mais simples, mas notória na mesma.

“Fizemos uma eucaristia na igreja e depois fomos para um terreno grande onde, com todas as precauções e mais algumas, fizemos uma atividade”. O dia serviu para confirmar o que já se presumia: o escutismo fazia muita falta. Mesmo “após tantos meses parados, em que só se reunia online, apareceu toda a gente”. As saudades eram muitas: “toda a gente está ansiosa  por ter uma atividade, um contacto físico, uma conversa com o amigo”.

No fundo, é isso o escutismo, para o chefe de Amorim. “A escola é a escola, mas escuteiros é uma coisa à parte. Os amigos estão nos escuteiros, é onde convivem todas as semanas, onde brincam e crescem juntos”, afirma, “as crianças são assim mesmo”.

De volta ao confinamento

Após o alívio do verão, os números voltaram a agravar e foi necessário voltar ao regime à distância. João Santos não esconde que “não é a mesma coisa”, mas garante que “não se perdeu a vontade de fazer escutismo”. Muito do mérito por o bichinho escutista não ter desaparecido é dos chefes, que vão “procurando jogos e algumas atividades online para irem fazendo e incutir nos miúdos”. E o resultado tem sido positivo: “eles adoram”.

A adaptação ao online também tem corrido bem: até agora, “não houve queixas” e “mostram-se interessados pelas coisas”. Para o chefe, a aceitação geral do online não surpreende, até porque “eles estão na praia deles. Para mim é que é mais complicado, que tenho 63 anos”, brinca.

No entanto, nota um certo comodismo quando se fala do online, talvez porque “o gasto é maior, mentalmente”. Isto surge como um problema “quando uma pessoa se acomoda, é muito mau, até para a sociedade”.

Mais recentemente, o agrupamento viu-se também privado da reunião de piedade, a missa mensal em que se reuniam todos os elementos e as pessoas que vivem com eles. O pároco de Amorim, pe. Guilherme Peixoto, “tem-se esforçado e feito a missa só para nós”, e o chefe admite que era “uma maneira de conseguirmos falar uns com os outros pessoalmente”. Mas, agora, com o novo confinamento, “vai fechar”.

“Se não for mais nada, acampamos em casa”

Relativamente ao futuro, os planos ainda não estão bem assentes. Porém, “a gente quer ver se consegue fazer algumas das atividades que foram adiadas no ano passado”, avança João Santos. A esperança do chefe é que haja condições e permissão para realizar um acampamento de agrupamento normal, com a tenda montada “no sítio dela, no monte, no campo, seja onde for”; e, “se não for mais nada, em casa. Nem que se monte a tenda debaixo da cama”.

Num futuro mais próximo, em março, estavam previstas as promessas dos novos elementos de cada secção, “mas não sabemos se vão existir, porque as igrejas estão encerradas e por norma as promessas são feitas na igreja”, explica. Também com o fecho das igrejas ficou suspensa a distribuição do jornal da paróquia, feita até dezembro pelos escuteiros. Neste momento, não faz sentido: “não havendo eucaristia não há informação”.

Num momento de incerteza, o chefe João Santos sublinha e louva o trabalho que o agrupamento e os seus elementos têm feito para não deixar o escutismo desaparecer. Para 2021, deixa a esperança de dar “andamento às atividades que não conseguimos fazer no ano passado”. Mas relembra que “não depende de nós, porque não somos nós que mandamos”.