Há uma expectativa real nas pescas: esperança de apoios concretos para mais segurança no mar e mais valor no pescado

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Há temas que, à primeira vista, parecem caber melhor num gabinete do que num jornal.

Listas de medidas, linhas de apoio, programas públicos. Soam técnicos, distantes, quase burocráticos. Mas, na verdade, quando se olha com atenção, tudo isto assenta em questões muito simples: trabalhar em segurança, conseguir ganhar a vida com dignidade e levar para terra um produto de qualidade.

É precisamente neste ponto —entre a segurança no mar e a valorização do pescado — que o PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência – pode, e deve, fazer a diferença. E há uma expectativa real em torno do que daí poderá resultar e das medidas que venham a ser concretizadas para o setor.

Se há ponto de partida incontornável, é a segurança.

Durante demasiado tempo, aceitou-se a ideia de que o risco fazia parte da profissão — como se fosse inevitável. Mas hoje sabemos que uma parte significativa dos acidentes não resulta do mar, mas das condições em que se trabalha. Equipamentos desatualizados, aparelhos e instrumentos sem proteção, operações exigentes feitas com meios que já não correspondem às exigências atuais.

Quando se fala em apoiar a aquisição de equipamentos mais seguros, ou em renovar embarcações, está-se a falar de prevenção concreta. Menos esforço físico, menos improviso, mais previsibilidade nas operações. E isso traduz-se diretamente em menos acidentes, menos lesões, menos vidas marcadas por um momento que podia ter sido evitado.

Mas a segurança não vive apenas a bordo. Vive também na decisão de sair — ou de não sair — para o mar.

E essa decisão está profundamente ligada à realidade económica. Um setor pressionado por custos crescentes — combustível, materiais, manutenção — é um setor onde o risco tende a aumentar. Não por irresponsabilidade, mas por necessidade. Quando há dias seguidos de paragem por causa do mau tempo, quando o rendimento falha, a tentação de aproveitar uma janela curta, mesmo em condições limite, torna-se maior.

É aqui que os mecanismos de apoio deixam de ser apenas uma questão económica e passam a ser uma ferramenta de segurança. Um sistema de compensação por inatividade, simples e rápido, permite aliviar essa pressão. Permite que a decisão de ficar em terra seja feita com racionalidade — e não em desespero. E essa diferença, muitas vezes invisível, é uma das mais eficazes formas de prevenir acidentes.

A segurança começa, aliás, antes de qualquer decisão. Começa na infraestrutura portuária.

Quem conhece a realidade de portos como o da Póvoa de Varzim sabe que a entrada e saída da barra é, por si só, um momento crítico. Assoreamento, necessidade constante de dragagens, instabilidade das condições. São fatores que aumentam o risco em momentos particularmente sensíveis da operação. Investir na reabilitação estrutural destas infraestruturas não é apenas uma questão de eficiência ou de poupança — é reduzir risco real, todos os dias, para quem entra e sai do mar.

Mas há um ponto menos visível, e talvez por isso menos discutido, que pode comprometer tudo o resto: a capacidade de executar os próprios investimentos. É precisamente aqui que se concentra uma parte significativa da esperança que hoje está depositada no PTRR. A possibilidade de canalizar investimento para modernizar o setor, melhorar condições de trabalho e aumentar a competitividade criou uma expectativa legítima junto dos operadores. No entanto, essa expectativa só se concretiza se as medidas forem ajustadas à realidade da pesca.

Nos últimos anos, muitos armadores avançaram com projetos, assumiram compromissos, iniciaram processos. Mas a execução no terreno tem esbarrado em obstáculos muito concretos: atrasos no fornecimento de equipamentos, dificuldades nas cadeias logísticas, períodos prolongados de mau tempo que impedem intervenções.

Se as medidas não tiverem em conta estes fatores — e se os prazos não forem adaptados a esta realidade — o risco é claro: projetos incompletos, investimentos comprometidos, oportunidades perdidas. E isso traduz-se, inevitavelmente, em menos segurança e menos modernização.

Por isso, mais do que anunciar apoios, é fundamental garantir que eles são executáveis. Que chegam ao terreno. Que permitem, efetivamente, renovar embarcações, instalar equipamentos, melhorar condições de trabalho. A prorrogação fundamentada de prazos, a simplificação de processos e a adaptação das regras à especificidade da atividade marítima são condições essenciais para que essa esperança não se transforme em frustração.

A modernização, aliás, tem um efeito que vai muito além da segurança: tem impacto direto na valorização do pescado.

Uma embarcação equipada com melhores sistemas de conservação permite tratar o peixe com mais cuidado desde o momento da captura. Menos tempo de exposição, melhor acondicionamento, operações mais rápidas e organizadas. O resultado é um produto de maior qualidade, com maior valor de mercado. A própria sustentabilidade entra nesta equação. A redução do uso de plásticos nas artes de pesca e a aposta em soluções mais seletivas não são apenas uma resposta a exigências ambientais — são também uma forma de reforçar a qualidade do produto. Hoje, o consumidor valoriza não só o que compra, mas como foi obtido.

E, no centro de tudo isto, estão as pessoas.

Sem condições de trabalho dignas, sem segurança, sem previsibilidade, é difícil atrair novos profissionais. O setor envelhece, perde capacidade, perde futuro. Apoiar o jovem pescador, simplificar processos administrativos, criar condições para entrada na atividade e facilitar o recrutamento regulado de trabalhadores estrangeiros são medidas essenciais para garantir continuidade.

Porque, no fundo, tudo isto se resume a uma ideia simples — e a uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.

Os apoios que agora se anunciam representam mais do que financiamento. Representam a possibilidade de corrigir fragilidades antigas, de tornar o setor mais seguro, mais moderno e mais valorizado. Mas essa possibilidade depende da forma como as medidas são desenhadas e, sobretudo, executadas.

O tema pode parecer técnico. Mas, na verdade, é tão simples quanto isto: criar condições para que quem anda no mar possa trabalhar melhor, com mais segurança — e trazer para terra um produto que valha mais