A insustentável leveza do ser – Edgar Torrão

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Milan Kundera faleceu em Paris no verão de 2023. Nunca foi reconhecido pela Academia Nobel com o seu Prémio Nobel da Literatura, ainda que a sua obra-prima publicada em 1984 que dá título a este singelo artigo seja uma notável narrativa sobre personagens que levam uma vida feita de decisões efémeras e sem significado.

Os tempos atuais que vivemos são de pro fundas mudanças na sociedade. A conetividade permanente, as redes sociais e a acelerada introdução de inteligência artificial em todos os setores da sociedade têm consequências profundas na transformação do comportamento individual. Cultiva-se intensamente o culto da personalidade, a objetificação do corpo para ter “likes” nas redes sociais, vendem–se conceitos amalgamados num passe-vite, cujo efeito é tornar o pensamento crítico num autêntico puré (de batata). Pratica-se a imposição das narrativas, mesmo que estas sejam factualmente erradas, distorcidas ou, até, inexistentes. O que é dito de manhã, entra no esquecimento à tarde e à noite contradito. Não se valoriza a coerência, o rigor e a ponderação. Verbaliza-se com rapidez para sinonimizar inteligência, filtra-se imperfeições para parecer sempre bonito (a) na fotografia, despreza-se quem aponta a incoerência ou mesmo quem pensa de forma diferente. E todos nós caímos no alçapão que nos remete para uma cave escura, irrespirável e onde prolifera o vírus das vidas sem significado de Kundera.

Já passaram mais de seis meses das eleições autárquicas, pelo que o tempo já nos dá um
certo distanciamento para a discussão serena dos maiores temas que impactaram a discussão dos candidatos na Póvoa de Varzim. Para meu espanto, todos os problemas no concelho se resumiram com intenso fulgor e retórica apuradíssima a uma rotunda e ao Póvoa Arena.

Depois de assistir ao debate entre candidatos locais, fiquei abesbílico. Um candidato prometeu um viaduto, seguramente estilizado pela inteligência artificial, para resolver um problema “gravíssimo” de acesso à cidade. O dinheiro a gastar não importava. Não se podiam ter os poveiros numa fila de trânsito para entrar e sair da cidade que consumia horas das suas vidas todas as semanas (era este o argumento). Fiquei inquieto com o argumento pungente e fui fazer uma experimentação empírica da situação. Quanto tempo eu perdia de manhã para entrar na Póvoa de Varzim e ao final da tarde para sair da cidade. Desde o acesso da A28 até à avenida dos banhos, nunca despendi mais do que 8 minutos (máximo) e alguns dias, apenas 4 minutos! Em cidades vizinhas demorei o dobro do tempo e verifiquei que os temas de acesso à cidade não eram sequer objeto de discussão política.

Naturalmente que sabemos todos que em julho e sobretudo em agosto a fadiga rodoviária será maior. E ainda bem. A cidade faz-se com vida, com pessoas e, sim, com trânsito. Se
o candidato pretendia viver numa cidade sem trânsito pode sempre escolher Miranda do Douro, bem bonita e muito pacata. E mesmo assim, em agosto e aos fins de semana também tem algum trânsito. Todos nós sabemos que as deslocações nas cidades implicam quase sempre trânsito, demora e contratempos. Um teste diário à nossa paciência, cortesia na estrada e alguma destreza para encontrar alternativas. Como dizia o atual secretário-geral das Nações Unidas, “é da vida!”.

Não faz qualquer sentido gastar-se mais um euro em corrigir esse acesso à cidade depois dos milhões já gastos do erário municipal. Aliás, a rapidez com que a narrativa política foi levantada foi a mesma que a levou já ao esquecimento. Sem ponderação, sem serenidade, apenas ruído efémero e sem significado.

No mesmo sentido, assisti divertido às imaturas afirmações dos políticos que contestavam o Póvoa Arena. Pessoalmente fui contrário à edificação do Póvoa Arena quanto à sua arquitetura e tipologia, mas não quanto à sua importância para a vida da cidade. A decisão
de se manter a memória visual de uma praça de touros foi legítima mas afastou a possibilidade da cidade ter um edifício arrojado, multi–funções que permitisse, inclusivamente, que fosse ocupado permanentemente com atividades de empreendedorismo e empresariais que a cidade tão necessita. Um espaço que pudesse servir para atrair realizações de âmbito cultural e empresarial, mas também que fosse um
espaço de trabalho diário que atraísse investimento à Póvoa de Varzim. Mas sendo pragmáticos, é melhor ter o Póvoa Arena do que uma praça de touros decrépita e decadente. A narrativa política à data das eleições autárquicas assentava no erro gigantesco para a cidade em ter um edifício com aquelas características junto ao mar, introduzindo uma manifesta carga insuportável na mobilidade da cidade.
Milhares de viaturas e pessoas entupiriam o norte da cidade. Adicionalmente, ainda o edifício estava a ser pintado e já se vociferava que não existiam espetáculos culturais e que deveria a Câmara Municipal contratar um gestor cultural específico para dinamizar o espaço. Vazio e sem atividade, argumentavam. Passados pouco mais de seis meses, já estiveram na Póvoa Arena alguns milhares de pessoas, sobretudo ao fim de semana, dando um colori do diferente à cidade e uma vivência, também ela, diferente, ainda que manifestamente insuficiente. Mas a narrativa política, estrepitosa e efémera, esmoreceu.

Continuo a acreditar que a larga maioria dos cidadãos se identifica com políticos que pra
tiquem a serenidade, a humildade de não ter resposta para tudo e a capacidade de contribuir para a paz e para um ambiente colaborativo nas cidades. Políticos de carne e osso, que cometem erros, mas têm pensamento crítico apurado e não têm necessidade de manipular as pessoas com narrativas falsas ou efémeras. Haverá sempre políticos oportunistas que batem com a mão no peito e invocam linhagem ancestral para justificar o direito divino a governar. Políticos que se enganam a eles mesmos, praticando o autoconvencimento de que com eles as cidades seriam um éden povoado por querubins e governado pelo pensamento único de uma sapiência que impossibilita o contraditório. São seres de uma insustentável leveza que a sociedade vai dispensando.

Artigo escrito por: Edgar Torrão