Fugindo da espuma dos nossos dias e depois do 25 de abril? – opinião de Luís Ramos

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A solução política, governativa, económica e social que temos hoje é imensuravelmente
superior àquela que viveram as gerações antes de 1974. Não sendo perfeita, voltar atrás é
inverosímil, sob o ponto de vista teórico e prático. A questão fulcral do nosso país continua
a ser a do dia seguinte.

Há, nestes 52 anos de existência democrática, três grandes períodos distintos que contribuíram para aquilo que somos hoje. Vejamos como se podem separar esses períodos.

Os primeiros anos foram cruciais para o novo regime democrático. Foi um período de
transição, onde se deu espaço a muita reflexão, à redação de uma nova Constituição, à
implementação do poder central e local, com aprendizagem rápida e correção de alguns erros iniciais de trajetória.

Ao mesmo tempo, Portugal recebia mais de meio milhão de portugueses (quase 10% da população), que regressavam (sem nada nos bolsos) das províncias ultramarinas em extinção. Seria importante refletir sobre a mudança de hábitos sociais (e empresariais) que este grupo de cidadãos trouxe para Portugal. Tudo conjugado, o país cresceu e alterou substancialmente, para melhor, a vida dos portugueses.

Segue-se um período de ininterruptas dificuldades de estabilidade política e financeira.
Rapidamente, os governantes aperceberam-se de que, sem a ajuda da então Comunidade
Económica Europeia, a CEE ali ao lado, o nosso crescimento seria lento e penoso.

A solução encontrada passou pela adesão e pelo cumprimento das regras comunitárias,
a troco de investimento a fundo perdido e de maior facilidade de penetração da nossa economia em novos mercados.

Ainda neste período foram importantes a aplicação dos primeiros fundos europeus na
nova rede de autoestradas, infraestruturas que se mostraram fundamentais para o desenvolvimento real da economia e da sociedade. A democracia atingia a maioridade, sendo este o período temporal em que o país mais cresceu em democracia.

Por último, segue-se um período mais longo, em que o crescimento começou a abrandar
até se tornar irritantemente constante e encostado ao chão. O centro de gravidade da União Europeia deslocou-se para Leste, mas Portugal ficou a “Leste”, adormecido no tempo. Pelo caminho, tivemos mais um deslize financeiro, e a única coisa que ficou de bom do tempo da Troika foram as “contas certas”.

Apesar de os incessantes fundos europeus continuarem ao dispor do país, este está estagnado há quase duas décadas, e isso sente-se em casa, pela contínua perda de poder de compra das famílias. E agora fala-se em economia de Guerra e não sabemos o que isso é há mais de 50 anos.

O país precisa de maior capacidade de mobilização dos recursos disponíveis e do bom
funcionamento das autoridades e instituições públicas. Precisamos de cuidar das pessoas
sem nunca descurar o tecido empresarial, a principal fonte geradora de riqueza. O Estado central tarda em resolver os problemas do país, e a recente tempestade Kristin expôs as
fragilidades da nossa governação atual.

As autarquias voltaram a ser o único verdadeiro reduto para acudir às populações e empresas, mesmo com sérias dificuldades operativas, quer por falta de meios, quer por falta de organização ao nível nacional e local. E dessa lição ficou claro que o país não está preparado para o impacto das alterações climáticas.

Em resumo, nos últimos anos o país não investiu naquilo que, sozinho, nunca conseguiria alcançar, não fez investimento público de referência (como no passado fez com a rede
de autoestradas), com grande impacto económico, garantindo a geração de riqueza para
anos futuros. O mar, como grande recurso, continua por explorar, e nem sequer temos
uma rede de transporte ferroviário de alta velocidade a funcionar. É um sinal mais do que
evidente de que algo de estruturante está a falhar e de que é necessário refletir, redefinir e
mudar.

Precisamos, então, de um novo “Abril” para voltarmos a crescer e a melhorar significativamente a qualidade de vida de todos os portugueses.

E que “Abril” será esse?

Artigo escrito por: Luís Ramos – Professor Universitário