Os nossos pais envelhecem enquanto estamos ocupados: a importância de um acompanhamento familiar atento – Gracinda Morais

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Envelhecer é inevitável. Perceber que os nossos pais estão a envelhecer é, muitas vezes, mais difícil. A vida acontece depressa. Trabalhamos, cuidamos dos filhos, cumprimos horários, respondemos a mensagens. Entretanto, quase sem darmos conta, os nossos pais envelhecem. Nem sempre esse envelhecimento se anuncia de forma evidente. Por vezes, começa numa chamada menos frequente, numa saída que deixou de acontecer, numa refeição feita sem vontade ou numa frase aparentemente banal: “Está tudo bem, não te preocupes.” 

Mas nem sempre está! Enquanto psicóloga, considero que um dos grandes desafios atuais não é apenas aumentar os anos de vida, mas garantir que esses anos são vividos com qualidade, dignidade, autonomia e ligação aos outros. A Ordem dos Psicólogos Portugueses salienta precisamente a importância de promover um envelhecimento ativo, saudável e com envolvimento social, identificando também a solidão, o isolamento, a depressão e as alterações cognitivas como áreas importantes de prevenção e intervenção.  

E é aqui que a família tem um papel essencial! Acompanhar não significa controlar. Não significa retirar autonomia, decidir tudo pela pessoa ou tratá-la como se tivesse deixado de ser capaz. Significa estar suficientemente próximo para reconhecer mudanças e agir antes de os problemas se agravarem. 

O pai que sempre saiu de casa e deixou de o fazer. A mãe que cuidava da sua aparência e começou a desinteressar-se. O esquecimento que se tornou mais frequente. A irritabilidade que surgiu sem explicação aparente. A perda de apetite. As noites mal dormidas. A medicação tomada de forma irregular. A frase repetida de que “já não vale a pena”. 

Estes sinais não devem ser automaticamente atribuídos à idade.  Um dos erros mais comuns é considerar que a tristeza, o isolamento, a perda de interesse ou o sofrimento emocional são consequências naturais do envelhecimento. Não são. A saúde psicológica continua a ser saúde em qualquer idade. A própria evidência reunida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses reforça a relação entre saúde física e saúde psicológica e a importância do diagnóstico, da prevenção e da intervenção precoces. 

Mas, concretamente, o que pode uma família fazer?  Pode começar por criar uma rotina de contacto real. Não apenas uma chamada apressada para perguntar se “está tudo bem”, mas conversas que permitam perceber como a pessoa está verdadeiramente a viver os seus dias. Perguntar como tem dormido, com quem tem falado, se continua a sair de casa, o que lhe dá prazer ou se alguma coisa a preocupa. 

Pode observar mudanças sem invadir. Uma alteração persistente no humor, no sono, na alimentação, na memória, na higiene, na organização da casa ou na vontade de conviver merece atenção. 

Pode também ajudar a manter uma rotina com significado. Ter compromissos, objetivos e atividades não é importante apenas na infância ou na vida profissional. Continua a ser fundamental ao longo de todo o ciclo de vida. Caminhar, aprender algo novo, participar numa atividade de grupo, estimular capacidades cognitivas, conviver ou simplesmente ter um motivo para sair de casa pode fazer uma diferença significativa. 

Nem todas as pessoas mais velhas precisam de um centro de dia! Este é também um ponto que merece reflexão. 

Durante muitos anos, quando uma família percebia que um pai ou uma mãe começava a ficar mais isolado, a resposta parecia quase automática: procurar um centro de dia. Os centros de dia têm um papel social e assistencial muito importante e são fundamentais para muitas pessoas e famílias. Mas não são, nem têm de ser, a única resposta possível. 

Há pessoas mais velhas que são autónomas, vivem nas suas casas, tomam as suas decisões e não necessitam de uma resposta assistencial. Precisam, contudo, de oportunidades de prevenção, estimulação, acompanhamento psicológico, convivência e participação social.

Nestes casos, é importante que as famílias conheçam também espaços clínicos e especializados dirigidos ao envelhecimento, onde a pessoa possa ser acompanhada por profissionais e participar em programas adequados às suas necessidades, sem sentir que perdeu a sua autonomia ou que passou a ser definida apenas pela idade. 

Estes espaços podem desenvolver programas de estimulação cognitiva, acompanhamento psicológico, grupos de promoção da saúde psicológica, treino de competências, atividades de socialização, promoção da autonomia e apoio às famílias e aos cuidadores. Podem também permitir identificar precocemente alterações emocionais, comportamentais, cognitivas ou funcionais que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. 

A Ordem dos Psicólogos Portugueses reconhece precisamente a importância da avaliação, da intervenção psicológica individual, familiar ou em grupo, da prevenção, da promoção da saúde psicológica e do desenvolvimento de programas dirigidos ao envelhecimento. Destaca ainda que os psicólogos podem intervir em diferentes contextos da vida das pessoas mais velhas e contribuir para um envelhecimento ativo e para a manutenção da qualidade de vida.  

Procurar um espaço clínico não significa procurar um lugar para “deixar” os nossos pais. Prevenir também é cuidar!  Não devemos esperar que exista um diagnóstico de demência, uma depressão instalada ou uma situação de dependência para procurar apoio. 

Depende de continuar a ter razões para viver esses anos com significado!

Fundamentação: Ordem dos Psicólogos Portugueses (2015), O Papel dos Psicólogos no Envelhecimento. Documento de revisão de dados e literatura científica. 

Artigo escrito por: Psicóloga Gracinda Morais Nº16677 registo na Ordem dos Psicólogos Portugueses e Registo na Entidade Reguladora da Saúde