Trabalhar mais para viver pior – João Martins

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Está a acabar mais um período das férias de Verão. No regresso ao trabalho, uma das perguntas que mais se ouve é: “Então, onde foste este ano?” Para um em cada três portugueses, a resposta é simples e triste: “Este ano, fiquei por casa.” Não porque não queira ir, mas porque não tem dinheiro para isso. De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, em 2025, 33% dos portugueses não tinham capacidade financeira para pagar uma semana de férias fora de casa.

Como é possível vivermos num País onde se trabalha mais horas, onde se ganha menos e onde, apesar disso, a discussão política continua tantas vezes centrada na necessidade de retirar direitos a quem trabalha?

Milhares de trabalhadores vêem-se obrigados a trabalhar horas sem conta para, no final do mês, conseguirem pouco mais de 900 Euros. Fazem sacrifícios enormes, sujeitam-se a horários por turnos e a formas de organização do trabalho particularmente penosas para
conseguirem ganhar mais algum dinheiro e privam-se de uma imensidão de coisas para conseguirem chegar ao fim do mês.

Já nem querendo comparar-nos com países como França, Alemanha, Suíça ou Luxemburgo, onde muitos compatriotas trabalham, olhemos para os nossos vizinhos. O trabalhador português trabalha, em média, mais 131 horas por ano do que o espanhol e recebe, em média, menos 26%. São dados que deviam ser alarmantes.

Os trabalhadores portugueses trabalham mais horas para ganhar significativamente menos.
Quando aos baixos salários juntamos o preço incomportável da habitação, o elevado custo da energia e dos combustíveis e a insuficiência dos transportes públicos, temos uma população que trabalha cada vez mais para conseguir manter um nível de vida que, muitas vezes, fica cada vez mais distante daquele que deveria ter.

E este é também o terreno fértil para o surgimento dos discursos populistas, daqueles que procuram convencer quem trabalha e não consegue chegar ao fim do mês de que a culpa é dos corruptos, dos imigrantes ou de qualquer outro bode expiatório. Mas não. A causa está em anos e anos de políticas que não valorizam o trabalho, que mantêm salários baixos e que, em vez de reforçarem os direitos de quem trabalha, insistem na ideia de que para sermos mais competitivos temos de trabalhar mais, ganhar menos e sermos precários toda a vida.

É falsa, e tem de ser combatida, a ideia de que este cenário é inevitável. De que não há alternativas. De que temos simplesmente de aceitar a realidade tal como ela nos é apresentada.

Existem alternativas sérias a estas políticas de empobrecimento, de desvalorização do trabalho e de favorecimento dos grandes grupos económicos. Existem outras opções para o País, que coloquem no centro o aumento dos salários, a redução dos horários de trabalho,
a valorização das carreiras e das profissões, o direito ao descanso e à conciliação entre a vida profissional e familiar.

E é importante dizê-lo, sobretudo a quem trabalha e sente que não consegue sair deste ciclo: não temos de aceitar que o futuro seja necessariamente pior do que o presente. Esta esperança política, que não assenta em promessas fáceis ou em soluções mágicas, mas na certeza de que as escolhas políticas fazem diferença e de que uma sociedade pode escolher colocar a economia ao serviço das pessoas, e não as pessoas ao serviço dos interesses económicos é urgente.

A nossa Constituição consagra, entre os direitos fundamentais dos trabalhadores, o direito à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da atividade profissional com a vida familiar, bem como o direito ao repouso e aos lazeres, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas.

As férias não são um luxo. O descanso, o lazer e a cultura não são um privilégio. Ter tempo para a família, para os amigos, para nós próprios e para viver para além do trabalho não é uma regalia que deva ser reservada a quem pode pagá-la. E, por isso, é tempo de políticas
que valorizem o trabalho, aumentem os salários, reduzam o tempo de trabalho e defendam os direitos de quem trabalha.

Porque um País onde quem trabalha não consegue sequer pagar uma semana de férias não pode ser apresentado como um País de sucesso. As alternativas existem, é preciso é ter a vontade política de as escolher.

Artigo de opinião escrito por João Martins.