Quanto vale, afinal, o trabalho de quem pesca?

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Quando o consumidor chega à peixaria, ao mercado ou ao restaurante e olha para o preço do peixe, é natural que pense que esse valor corresponde, em grande parte, ao que recebeu quem o pescou. Mas a realidade é bem diferente. Entre o preço de venda em lota e o preço que chega ao consumidor final há um caminho longo, com vários intervenientes, custos, perdas e margens. E, no início desse caminho, está quase sempre quem menos capacidade tem para influenciar o preço final: o pescador.

O peixe que chega fresco à nossa mesa não aparece simplesmente na lota. Antes disso, houve uma embarcação que se preparou e saiu para o mar, muitas vezes de madrugada, enfrentando frio, mau tempo, incerteza e risco, suportando desde logo custos com combustível, gelo, manutenção de motores e equipamentos, reparação de redes, cabos, anzóis, alcatruzes, covos ou outras artes de pesca, seguros, vistorias, licenças, comunicações, equipamentos de segurança e trabalho da tripulação. A isto acresce o desgaste natural da embarcação e do material, que existe mesmo nos dias em que o mar não deixa trabalhar, em que a pesca é fraca ou em que o preço obtido em lota não chega para compensar o esforço e a despesa da faina.

É por isso que importa desfazer a ideia de que tudo o que o pescador vende corresponde a lucro. A realidade é bem diferente. Uma embarcação é uma pequena empresa em movimento, sujeita a despesas constantes e, ao mesmo tempo, dependente de fatores que ninguém controla totalmente: o estado do mar, a abundância do pescado, as quotas, os defesos, as avarias, o preço do combustível, a procura do mercado e o valor que os compradores estão dispostos a pagar naquele dia.

Depois da captura, o peixe entra em lota, onde é vendido em primeira venda. É aqui que se fixa o primeiro valor comercial do pescado. Só que esse valor está muitas vezes muito distante daquele que o consumidor virá a pagar na banca, no supermercado ou no restaurante. Na lota, espécies comuns na nossa costa podem ser vendidas por valores que surpreenderiam muitos consumidores.

Em dados recentes de primeira venda, encontram-se exemplos como carapau a pouco mais de dois euros por quilo, cavala a pouco mais de um euro por quilo, faneca perto dos três euros por quilo, pescada abaixo dos cinco euros por quilo e polvo acima dos oito euros por quilo. Na lota da Póvoa de Varzim, surgem também valores muito expressivos — carapau a 1,64 €/kg, faneca entre 2,51 €/kg e 4,00 €/kg, pescada-branca a 3,83 €/kg e polvo-vulgar a 5,83 €/kg —, mostrando bem como o valor inicial do pescado pode estar longe daquele que o consumidor encontra mais tarde na banca.

Naturalmente, estes valores variam consoante o dia, a quantidade descarregada, o tamanho, a categoria, a frescura do pescado e a procura existente. Ainda assim, ajudam a perceber uma realidade muitas vezes esquecida: o preço que chega ao consumidor não é o preço pago ao pescador.

A partir da lota, o peixe segue para compradores, armazenistas, transportadores, mercados, peixarias, supermercados ou restaurantes. Pelo caminho há conservação em frio, transporte, mão de obra, quebras, desperdício, impostos, custos de funcionamento e margens comerciais. Todos estes elementos ajudam a explicar por que razão o preço final pode ser bastante superior ao valor inicial pago em lota. Ainda assim, a diferença impressiona: numa comparação meramente indicativa entre algumas espécies vendidas em lota na Póvoa de Varzim e os preços praticados numa grande superfície da mesma cidade, encontram-se exemplos como carapau a 1,64 €/kg em lota e a 4,99 €/kg no retalho, pescada-branca a 3,83 €/kg em lota e a 10,99 €/kg no retalho, ou polvo-vulgar a 5,83 €/kg em lota e a 12,99 €/kg no retalho, mostrando bem como o valor pago pelo consumidor pode ficar muito distante daquele que chega a quem captura o peixe.

Mas essa explicação não deve esconder o essencial: o pescador é o primeiro elo da cadeia e, muitas vezes, o mais frágil. É ele quem assume o risco de sair para o mar sem garantia de captura, sem garantia de bom preço e sem garantia de que a viagem compense os custos suportados. Tal como acontece noutros setores primários, quem produz ou captura o alimento é frequentemente quem tem menor capacidade para influenciar o valor final pago pelo consumidor.

Na nossa costa, espécies como a sardinha, o carapau, a cavala, a faneca, a pescada, o polvo, a raia, o linguado ou o peixe-espada fazem parte da identidade piscatória local. São espécies que representam trabalho, conhecimento, tradição e economia. Cada uma delas carrega consigo muito mais do que um preço por quilo: carrega horas de mar, investimento, experiência e uma forma de vida que tem passado de geração em geração.

Por isso, quando se fala no preço do peixe, é importante olhar para toda a cadeia. O consumidor paga um valor final que resulta de muitos custos acumulados, mas o pescador recebe apenas o valor da primeira venda, depois de já ter suportado grande parte do risco e da despesa. Muitas vezes, quando se fazem as contas ao combustível, à tripulação, à manutenção, aos seguros, às licenças e ao material perdido ou danificado, percebe-se que uma boa venda em lota nem sempre significa uma boa margem para quem foi ao mar.

Também por isso, é injusto olhar para o preço do peixe apenas quando ele chega à banca. A história começa muito antes. Começa no cais, na preparação da embarcação, no investimento feito antes de saber se haverá captura, no esforço da tripulação, nas noites mal dormidas, nos dias de mau tempo, nas artes que se perdem, nas avarias que surgem e no risco permanente de uma atividade que continua a ser das mais duras e exigentes.

Valorizar o pescado local não é apenas escolher peixe fresco e de qualidade. É também reconhecer o trabalho de quem o trouxe até terra. É perguntar de onde vem o peixe, preferir produto nacional sempre que possível, respeitar a sazonalidade e compreender que, por trás de cada caixa vendida em lota, há uma embarcação, uma tripulação e uma comunidade inteira dependente do mar.

Quando se diz que o peixe está caro, talvez devamos perguntar também: caro para quem? Para o consumidor, muitas vezes é caro. Mas para quem o pescou, o preço recebido em lota nem sempre traduz, com justiça, o trabalho, o risco e os custos que estão por trás de cada quilo de pescado.

O preço que o consumidor paga no final da cadeia não conta toda a história. A história começa muito antes, ainda no cais, quando a embarcação se prepara para sair, e deve obrigar-nos a pensar numa cadeia de valor mais equilibrada, onde quem captura o peixe, assume o risco e suporta os primeiros custos receba uma parte mais justa do valor que chega ao consumidor