Envelhecimento ativo, estimulação cognitiva e saúde psicológica: uma abordagem centrada na pessoa- Gracinda Morais

0
107

O envelhecimento é um processo natural e inevitável, acompanhado por alterações físicas, emocionais, psicológicas e sociais. Contudo, envelhecer não significa deixar de viver, de aprender ou de participar ativamente na sociedade. Pelo contrário, a forma como a pessoa idosa enfrenta esta etapa influencia significativamente a sua qualidade de vida e o seu bem-estar.

Em Portugal, cerca de 26,6% da população tem mais de 65 anos, prevendo-se que este valor ultrapasse os 40% até 2050. Este cenário exige uma mudança de paradigma: em vez de encarar a velhice como uma fase de perdas e limitações, é fundamental promover um envelhecimento ativo, saudável e participativo, baseado na dignidade, na autonomia e na
valorização da história de vida de cada pessoa.

A estimulação cognitiva desempenha um papel importante na manutenção das capacidades mentais, na prevenção do declínio cognitivo e na promoção da autoestima. No entanto, esta estimulação não deve limitar-se a exercícios realizados em salas fechadas ou a atividades descontextualizadas.

A verdadeira estimulação acontece quando está ligada aos interesses, às experiências e às rotinas que acompanharam a pessoa ao longo da vida.

Muitos idosos tiveram percursos profissionais, familiares e sociaisricos e ativos antes da reforma. Por isso, a intervenção deve respeitar a sua identidade e favorecer a continuidade dos seus papéis sociais, promovendo atividades significativas e funcionais. Passeios ao ar
livre, visitas culturais, participação em eventos comunitários, contacto com a natureza, atividades intergeracionais e experiências relacionadas com antigas profissões ou hobbies constituem formas privilegiadas de estimular a memória, a atenção, a linguagem e a interação social.

Além dos benefícios cognitivos, estas experiências reforçam o sentimento de utilidade, autonomia e pertença à comunidade. A manutenção da capacidade de decidir, participar e continuar a construir projetos de vida é um dos pilares fundamentais da dignidade na velhice.

Importa também refletir criticamente sobre algumas práticas ainda presentes e determinados centros e instituições para pessoas idosas. Apesar da intenção de proporcionar ocupação e convívio, é frequente observar atividades excessivamente infantilizadas, centradas em pinturas para colorir, trabalhos manuais repetitivos ou tarefas
desprovidas de significado para muitos adultos que tiveram vidas profissionais, familiares e sociais ricas e ativas.

A pessoa idosa não regressa à infância pelo simples facto de envelhecer. Tratar a velhice como uma segunda infância constitui uma forma de idadismo e pode contribuir para a perda da autoestima, da autonomia e do sentimento de utilidade. O simples facto de uma atividade manter as pessoas ocupadas não significa que seja cognitivamente estimulante ou promotora do seu bem-estar.

Mais importante do que preencher o tempo é proporcionar experiências significativas, compatíveis com os interesses, competências e percursos de vida de cada pessoa. Um antigo agricultor poderá beneficiar mais de atividades ligadas à natureza ou a hortas comunitárias; um professor poderá apreciar debates e visitas culturais; um artesão poderá sentir-se realizado ao transmitir conhecimentos às gerações mais novas; alguém com uma vida social ativa encontrará maior satisfação em passeios, projetos intergeracionais ou participação em iniciativas da comunidade.

A estimulação cognitiva não deve ser confundida com entretenimento passivo ou com ocupações padronizadas. Deve assentar no respeito pela dignidade, pela individualidade e pelo direito de cada pessoa continuar a exercer os seus papéis sociais e a manter uma vida ativa e significativa. Mais do que “ocupar” os idosos, importa envolvê-los em experiências que façam sentido para eles e que preservem a sua identidade.

O envelhecimento pode igual mente ser acompanhado por crises emocionais, perdas e dificuldades de adaptação que favorecem o aparecimento de depressão, ansiedade ou isolamento. Nestes casos, o psicólogo assume um papel fundamental, ajudando a pessoa idosa a compreender as mudanças inerentes ao envelhecimento, a lidar com
os desafios emocionais e a desenvolver estratégias de adaptação que preservem a sua qualidade de vida e o seu equilíbrio psicológico.

As instituições e os profissionais têm, por isso, uma responsabilidade ética e técnica acrescida. Não basta assegurar cuidados básicos ou proporcionar atividades de ocupação. É necessário desenvolver programas que promovam a participação, a mobilidade, o contacto com a comunidade, o acesso à cultura e a manutenção dos laços sociais, evitando práticas infantilizantes que, ainda que bem-intencionadas, podem representar uma forma subtil de desvalorização da pessoa idosa.

Mais do que acrescentar anos à vida, importa acrescentar vida aos anos.

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva é aquela que reconhece o valor dos seus membros mais velhos, combate os estereótipos associados à velhice e investe em
políticas públicas que favoreçam a participação social, a acessibilidade, a promoção da saúde e o envelhecimento ativo. Envelhecer com qualidade significa continuar
a viver com significado. Significa respeitar a história de cada pessoa, promover a sua autonomia e proporcionar oportunidades para que permaneça ativa, integrada e em contacto com a comunidade, a cultura e a natureza.

A estimulação cognitiva mais eficaz é aquela que acontece na vida real, em contextos ricos em experiências, relações e emoções, porque é através delas que se preservam não apenas as funções cognitivas, mas também a identidade, a dignidade e o sentido de pertença de cada pessoa.

Uma sociedade que trata os seus idosos como cidadãos ativos e não como crianças envelhecidas é uma sociedade mais humana, mais justa e mais consciente do valor inestimável da experiência e da sabedoria acumuladas ao longo da vida.

Artigo escrito por: Gracinda Morais.

Psicóloga Clínica e da Saúde, Diretora Clínica: Clínica da Mãe na Póvoa de Varzim. Fundadora da Mala dos Afectos: Centro de Psicologia&Educação em Vila do Conde, registada na Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Cédula Nº16677 e registada na Entidade Reguladora da Saúde.