Francisco Assis (Qual é a pressa…?)

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DAVID SANTOS

Começo por referir que fui apoiante de Francisco Assis quando ele se candidatou à liderança da Federação Distrital do Porto. Nessa altura encabecei mesmo na concelhia poveira a lista de delegados que apoiou a sua moção de estratégia, integrando depois a sua lista candidata à Comissão Política Distrital.

Estive, pois, com Assis nessa altura. Mas não o fiz porque o considerasse um bom líder ou me sentisse ideologicamente próximo dele. Simplesmente acontecia que a Distrital do Porto estava controlada por pessoas que considerava movidas por interesses que nada tinham a ver com o programa do PS, que viviam da troca de favores entre elas, em minha opinião prejudicando o projecto socialista. Considerando Assis um homem política e intelectualmente honesto, senti que ele tinha condições para reverter essa situação e dei-lhe então o meu apoio, apesar de, repito, não me identificar ideologicamente com as suas posições. Mas na política é preciso definirmos prioridades.

As dúvidas que tinha quanto à sua capacidade de liderança confirmaram-se nos anos seguintes, em que o acompanhei na Comissão Política Distrital. Em minha opinião ele não foi capaz de se tornar um eficaz Presidente da Distrital, por nunca se saber assumir verdadeiramente como tal; por essa razão a Federação Distrital do Porto não teve o impulso que seria de esperar. Talvez por isso, ele não voltou a candidatar-se. Mas, em minha opinião, cumpriu a sua missão, que foi desalojar quem anteriormente se servia das funções que desempenhava; criou, portanto, as condições para que a Federação Distrital do Porto deixasse de servir interesses pessoais e pudesse, a partir dessa altura, entrar numa nova fase em que os militantes, de forma geral, passaram a ter alguma voz e maior capacidade de intervenção. Considero ter procedido bem ao apoiá-lo.

Agora que Assis parece perfilar-se como putativo candidato à liderança, espreitando à espera que Costa dê algum tropeção, esse apoio circunstancial não me impede de o criticar. É inteligente, culto, bem informado, um bom tribuno e, ainda acredito, politicamente sério, pelo que acho incompreensíveis as suas acções nos últimos tempos. Por outro lado, realmente penso que não tem as características indispensáveis a um líder, além do que não tem uma ideologia definida, embora se aproxime muito mais do centro-direita do que da esquerda, posicionamento político com o qual, como disse, não me identifico, e que penso que não representa o sentir profundo do Partido Socialista. Se fosse eleito, seria talvez uma cópia de má qualidade de Tony Blair, que conduziu os Trabalhistas britânicos à posição pouco relevante que têm tido nos últimos anos. Por tudo isto, se realmente alguma vez se candidatar a secretário-geral, não terá o meu voto.

Aparentemente para “marcar terreno” entendeu manifestar a sua oposição à estratégia da direcção do Partido, fazendo-o de forma pública. É uma posição legítima, que por princípio o Partido respeita, à luz da pluralidade e abertura que pratica internamente. Assim se passasse em todos os outros Partidos. Mas já não deixa de ser questionável o momento em que o faz, nas vésperas da discussão do programa do governo PSD/CDS na Assembleia, bem como a forma escolhida, através de uma jantarada de leitão (e não está em causa o prato escolhido, mas sim o enquadramento dado ao “evento”) na qual, pasme-se!, até Narciso Miranda participou (mas não havia ele sido expulso do PS?); Narciso, que em tempos ele desalojou da liderança da Federação, pelas razões que atrás explanei. Desvia assim as atenções dessa discussão para as pretensas divisões internas no Partido Socialista; em vez de destacar as políticas criticáveis do programa de governo da direita, coloca no centro do debate público uma suposta divisão no PS que, aliás, se constata ser bem menor do que a que é propalada. Repare-se que o chamado “grupo segurista”, que o apoia, tem um peso de um terço na Comissão Nacional, e os votos contra a estratégia da Direcção foram dois ou três por cento!

Qual a razão de agendar tal encontro para a véspera em que o tema se discute nos órgãos nacionais e em que o programa do governo PSD/CDS é apresentado na Assembleia? Para quem afirma que não quer apelar à rebeldia de alguns deputados e que nestas matérias deve ser respeitada a disciplina de voto, manifestando ainda a opinião que, havendo acordo de incidência parlamentar entre os partidos de esquerda, o PR deve dar posse ao governo do PS, porquê o leitão na Mealhada neste momento? Sem prejuízo de fazer chegar desde já a sua voz à Direcção nos órgãos próprios, seria lógico esperar que tudo estivesse resolvido e depois, então, trouxesse o “debate para a rua” e criasse a tal “corrente alternativa” no Partido. Parafraseando alguém que lhe é caro, é caso para perguntarmos: qual é a pressa? Tanto mais que António Costa estava a levar a cabo o mandato que lhe foi conferido pela Comissão Nacional, que posteriormente, quase por unanimidade, aprovou os resultados.

Por que se deixa instrumentalizar desta forma? Ou será que isto traduz mesmo uma intenção pessoal, devidamente ponderada? Porquê? Ambição pessoal? Alguma vaidade pelo protagonismo que estas posições lhe dão? Porque esse protagonismo faz bem ao ego? O que espera alcançar?

É lógico que possamos ter algumas das dúvidas que vêm sendo referidas a propósito da solução encontrada, sobretudo por alguma intransigência que o PCP sempre assume na negociação de soluções partilhadas. Mas a verdade é que a radicalização da direita ao longo dos últimos quatro anos e meio, fez desaparecer o centro político e desta forma o PS não tem à sua direita qualquer possibilidade de entendimento político. Lembremo-nos que desde a primeira hora, em 2011, Passos Coelho afirmou que não precisava do PS para nada e, consequentemente, nunca procurou acordos. Bem pelo contrário. Seria agora séria a “vontade” para negociar? Duvido. E que estabilidade teria esse “entendimento” com PSD e CDS?

Essa prática da direita criou as condições para que estejamos hoje perante um novo paradigma. Não havendo agora centro político, só resta ao PS procurar alianças à esquerda, o que, aliás, até corresponde à sua verdadeira essência política. Andámos ao longo dos anos a criticar PCP e BE por serem Partidos de protesto e não assumirem a responsabilidade de soluções para a governação do país; agora que essa janela se abre e uma nova realidade política está no horizonte não podemos deixar de a encarar com expectativa, serenamente, na procura da melhoria das condições de vida dos portugueses.

 

Nota: O autor escreve respeitando a antiga ortografia