“A ilusão da liberdade”

Num mundo em que a liberdade nas suas diversas modalidades é-nos constantemente bombardeada através dos media, o que é a tão cobiçada liberdade, desejada por uns e temida por outros?

Atualmente, a doutrina maioritária entende que o ser humano é, por natureza, um ser inteligente capaz de determinar-se segundo o seu entendimento, ou seja, é dotado de capacidade de ação e de escolha, podendo manifestar-se por diversas formas: liberdade de pensamento, expressão/ opinião, política, religiosa e deslocação.

Na busca pela liberdade, o homem já alcançou vitórias. Já aboliu a escravatura em massa e pisou a Lua. Libertou-se da ideia de que alguém pode ser dono de outra pessoa (embora ainda não se tenha livrado da ideia de que se possa comprar o tempo da outra) e libertou-se da prisão de apenas existir luz natural. Assim, no passado existia um excesso de ordem e escassez de liberdade. Já no século XXI, a liberdade é recebida e aceite quase como um elemento natural da realidade, é tomada como garantida, e inevitavelmente confrontamo-nos com a desregulação das instituições, a crise das ideologias e a ascensão da liberdade individual. Esta sensação é apenas uma ilusão dos tempos da liberdade (excessiva) explicando-se pelo comportamento das massas e pela incessante busca da felicidade arbitrária.

A tecnologia talvez seja o grande exemplo da busca humana por mais e mais liberdade. Gostamos de pensar que somos livres, que decidimos soberanamente sobre o nosso destino. Mas aí também reside um paradoxo. Não é sem ironia que, ao apercebermo-nos criticamente dos diversos avanços tecnológicos que nos rodeiam, constatamos que toda a tecnologia, na mesma medida em que liberta, produz, por sua vez, um novo tipo de aprisionamento e, na mesma medida que aproxima, afasta. Não nos tornamos mais vulneráveis e, em consequência, menos livres quando dependemos cada vez mais de dispositivos, cujo funcionamento muitas vezes desconhecemos?

No que respeita à liberdade de expressão/opinião, chamo à colação o caso de um professor francês que foi decapitado por ter mostrado caricaturas do profeta Maomé em duas aulas sobre este tema. Claro que este tipo de liberdade pode sempre sofrer sanções quando a opinião ou a crença tem como objetivo discriminar uma pessoa ou grupo específico através de declarações difamatórias ou ofensivas, mas será que neste caso se aplicava esta sanção? (Afinal onde está o direito a ter direito à expressão?)

Ainda quanto a este tópico gostaria de realçar o conceito “ser politicamente correto”, utilizado para suavizar as críticas, por vezes, pouco construtivas. Será que gozamos da nossa liberdade total ou estamos a autolimitar-nos não dizendo tudo o que pensamos?

Numa outra vertente, existe a liberdade de escolha que se caracteriza por ser a possibilidade conferida ao individuo, de, por si próprio, tomar decisões. Já Sartre dizia “estamos condenados a ser livres” e somos reféns das consequências, isto significa que todas as nossas escolhas — o decidirmos escolher ou não escolher- apenas dependem de nós e todas as ações e omissões têm repercussões. Por exemplo, não ir votar tem como consequência permitir que os restantes eleitores votem por nós. Se temos o poder nas mãos porque é que não usufruímos dessa faculdade? Será pelo facto de a tomarmos como um dado adquirido?.

Em suma, quando começa e quando termina a liberdade? Na minha opinião a liberdade plena é uma liberdade limitada, é um ideal normalmente atraiçoado, na medida em que, para ser justo, cada um apenas pode gozar de 50% da sua liberdade nas suas relações interpares a fim de evitar que este bem social (a liberdade) possa servir como meio de dominação de uns perante os outros. Nesta lógica e em jeito de síntese, mudam-se os tempos, mudam-se os meios de controlo, a dependência é a mesma, é a ilusão da liberdade.

Catarina Barreirinho

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