Tempo de cultura ao domicílio

Indubitavelmente, as artes e a cultura sempre foram um refúgio do ser humano, e mostram ser um aliado na superação de períodos conturbados.

E hoje vivemos um período conturbado. Surgiu um vírus que assola a população mundial, destabilizou toda a nossa rotina diária e rompeu com o convívio social a que sempre o ser humano esteve habituado. Todo este cenário dramático afeta o estado de espírito de qualquer um de nós e a nossa mente sente necessidade de se evadir e abstrair para não cair num desânimo e tristeza inerentes à conjuntura que vivemos.

Assim, mais do que nunca, surgem as artes e a cultura como ansiolítico deste tempo insólito. Recorremos à música, ao teatro, ao cinema, à dança, à literatura, à pintura e a outras formas de expressão artística para combater o vazio sentido em alguns momentos do nosso isolamento.

E só o podemos fazer graças aos profissionais do mundo da arte e ao seu trabalho. Eles, que evidentemente sentiram o abalo da pandemia que ditou elevadas perdas neste setor, viram as suas peças adiadas ou canceladas, ensaios e projetos suspensos, teatros, cinemas e salas de espetáculo encerrados, tal como os museus e galerias de arte. Tudo isto causou um esvaziamento da agenda cultural e colocou muitos artistas sem fonte de rendimento.

Neste contexto, foram criados alguns apoios destinados a fazer frente às debilidades momentâneas do setor que, em Portugal, sempre foi sustentado por uma economia precária e que com o impacto da pandemia pode vir a sofrer uma rotura fatal. Portanto, não persistem dúvidas de que é necessário pensar no panorama pós-pandemia de forma estruturada, a curto, médio e longo prazo para evitar essa consequência.

Porém, em tempo extraordinário marcado por incertezas em relação ao futuro, estes profissionais reinventam-se, adaptam-se e recorrem a diferentes meios para continuar a revitalizar o mundo artístico e cultural. Constatamos isso nas redes sociais, que são agora o novo palco de tantos músicos e cantores que oferecem concertos a partir das suas casas; museus que, através dos seus sites e de forma interativa, permitem a visita e exploração de coleções e exposições; algumas companhias de teatro fazem chegar até a nossa casa as suas peças pelos suportes digitais disponíveis, tal como coreógrafos e companhias de dança que dão a conhecer as suas criações do mesmo modo. Tudo isto para que o público continue a alimentar-se da criação artística, quase como uma cultura ao domicílio.

Refletindo sobre esta realidade, ocorre-me aludir aos serões de Bruno Nogueira no Instagram. Ao mesmo tempo que rimos da obscenidade das conversas do mesmo com Nuno Markl, somos surpreendidos pela pianista Maria João Pires, a atriz Eunice Muñoz, a fadista Ana Moura ou pelo pintor Vhils. E sabemos que, todos os dias, terminam com Filipe Melo ao piano. A versatilidade de “Como o bicho mexe” faz-me pensar numa mensagem de consciência cultural e artística, de promoção e valorização, através da qual nos vamos apercebendo do papel fundamental da cultura tanto na realização humana, como na própria democracia.

Margarida Sousa Lima

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