Celebrar o 25 de Abril em tempos de pandemia

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Sou de uma geração que nunca se sentiu privada da sua liberdade. Nascemos num Portugal já democrático e, talvez seja por isso que este distanciamento social nos custe tanto. Esta alteração forçada das rotinas criadas por cada um gera um conflito enorme a quem, desde sempre, teve a sua vida facilitada e onde o tal conceito de liberdade muitas vezes não passa de isso mesmo, um conceito abstrato e tomado como adquirido.

Perigosamente, assistimos à difusão de discursos propagandísticos e populistas de exaltação ao período salazarista onde se afirma muitas vezes que, com o Estado Novo, o tão badalado “Covid-19” teria uma resolução muito mais eficiente e rápida. Discursos estes que não servem mais do que os interesses de uma minoria que pretende chegar à Assembleia da República, a casa primordial da democracia, para a utilizar em benefício próprio, num exercício de poder pelo poder.

É um erro pensar assim. O 25 de Abril não acabou com a possibilidade de discursos antidemocráticos terem a oportunidade de ser difundidos. Contudo, proporcionou o que pode ser considerado um dos princípios basilares de uma democracia, a liberdade de imprensa. Numa era onde a difusão de informação acontece praticamente ao segundo, é fulcral que se volte à génese dos meios de comunicação: questionar, incomodar, mas acima de tudo informar, de uma forma fidedigna. Se em tempos se usou o cravo como uma arma no combate do regime, nos nossos dias, os meios de comunicação são quiçá, a melhor forma de combate e desconstrução dos discursos populistas acima mencionados.

Portanto, se esta pandemia está a criar à sociedade dificuldades às quais esta não está habituada a dar resposta, imagine-se o quão mais complicado seria atravessar este mesmo período sem existir a possibilidade de, apesar de separados, continuarmos todos ligados à distância de um clique, fintando assim o isolamento social. Ou ainda se não tivéssemos um acesso livre à cultura, talvez aquela que tem sido a maior aliada durante este período de exceção, contribuindo para a monotonia dos dias se tornar, de uma maneira ou de outra, menos monótona.

Diz-se que um otimista não passa de um pessimista mal-informado. Contudo, apesar de ser um realista convicto, não iria tão longe, acreditando que existe lugar para o otimismo no desenrolar da vida. Talvez seja por isso que por mais arco-íris que veja, e por mais ondas de positivismo onde esteja inserido tenho noção de que não, não vai ficar tudo bem. A tempestade que assolou todo o mundo veio para ficar. Mas, ainda assim, o ligeiro otimismo que eu acredito que tem lugar na vida faz-me pensar que, por mais tempo que demore, eventualmente a bonança vai chegar.

Assim, é importante não deixar cair no esquecimento o ato heroico dos “Capitães de Abril”. Seja onde for, o 25 de Abril deve ser celebrado e relembrado, para não existir espaço para que qualquer ideia antidemocrática volte a pairar sobre as pessoas. Não vivi o 25 de abril é certo, mas tenho consciência de quem sem ele não poderia estar aqui a escrever este artigo. Ao som da icónica “Grândola, Vila Morena” a bonança chegou em Abril de 1974. Agora, resta à sociedade cumprir com a sua parte, para descobrirmos ao som de que música é que iremos festejar o fim da pandemia.

João Magalhães