Semana das dores

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1952

A Câmara Municipal poveira teve uma atitude/decisão oficial ao retirar das tradicionais Festas das Dores, sempre com o epicentro no fim de semana após 15 de setembro, aquilo que mais as identifica. Uma decisão dupla: primeiro, proibiu o estourar de foguetórios antes e depois do ponto alto festivo; depois matou pela raiz o lançamento do chamado fogo de artifício noturno, tão caraterístico nas festas e romarias em tudo que é recanto lusitano. Justificam que é para bem do descanso das pessoas debilitadas que, levadas pela doença, ocupam as enfermarias do hospital, ou o soma de longos anos as levam a recorrer aos Lares de Idosos ou Centros de Dia para terem estadias com direito a descanso.

Porque tudo está ali ao pé das festas da Senhora das Dores, com edifícios praticamente geminados e em vias, segundo promessas oficiais, de abrirem os braços para outras valências mais confortáveis e mais adequadas à evolução dos tempos. As queixas constantes que caíram desde há longos anos, nas “Casas Grandes” que gerem os destinos oficiais desta Póvoa sempre em evolução pesaram na decisão drástica dos senhores do poder autárquico. Mas essas queixas já são hereditárias, são do tempo das “outras senhoras”, principalmente quando os festivais eram vividos nas “barbas” do Hospital, com bandas de música (afamadas), Grupos de Zés Pereira com toda a sua chinfrineira, os barulhentos altifalantes dos vendedores da “banha da cobra”, tentando impingir tudo o que possa ao público que se aglomerava noite e dia junto das barracas espalhadas pelo Largo fronteiro ao Hospital e à Igreja, e que culminava sempre com a feira da louça principalmente na segunda-feira com as afamadas “faianças de Barcelos” a tornarem-se vedetas e originando que ganhasse o direito de entrar no rol das tradições, aqui nas nossas bandas geográficas entre Minho e Douro Litoral. Há até quem “goze” com a nomenclatura de Largo das Dores, distribuindo essa denominação pelo facto de lá se situar a Igreja das Dores (Nossa Senhora das Sete Dores, grande centro de devoção religiosa) e… o Hospital, grande polo de sofrimento humano.

Este ano quanto a festejos e foguetórios, foram cortados oficialmente pela raiz. O poder autárquico, tão causticado esteve anos e anos pelos protestos dos atingidos, incluindo os moradores ali ao pé, mas com sofrimentos menos dolorosos, não resistiu e pela primeira vez no historial poveiro acionou um travão às quatro rodas.

Vai daí, também o S. Pedro colaborou, despejando fortes bátegas de águas celestiais, impulsionadas pela força do vento, impedindo a saída da Procissão (que costuma reunir largas centenas de devotos após o pálio), já quando os primeiros andores e figurantes (anjinhos) estavam na rua, mais as grandes filas de mesários das confrarias que sempre tornam o cortejo mais sumptuoso. Tudo teve de recolher a penates, para segurança dos corpos dos intervenientes e assistentes. Quer dizer: um mal nunca vem só. O poder político ditou a sua lei da rolha; o poder divino não lhe ficou atrás. Agora resta por melhores condições climáticas para que não se repita o que se passou este ano. Na parte religiosa, porque quanto às decisões oficiais, não é de crer que haja qualquer viragem, saída do cimo da Casa da Arcaria da Praça do Almada.

Para que o fim de semana fosse de maior sofrimento dentro desta Póvoa banhada pelo mar, veio no fim da tarde de sábado, noutra variante poveira: o futebol (Que nos desculpem esta mistura de “alhos com bugalhos”, mas tudo isso faz parte do bolo humano). No jogo de futebol entre o Varzim e o Canelas, para a Liga 3, apareceu uma arbitragem que até custa crer que para os lados da terra dos ovos moles (com boas tradições no conceito futebolístico) haja árbitro desta têmpera. Valeu tudo e mais alguma coisa por parte de um clube que se situa perto das rias aveirenses para tirar brilho ao espetáculo futebolístico, e, acima de tudo, unanimemente acusado de ser em prejuízo varzinista. Cenas impróprias para consumo sobre o relvado somaram-se, quantas vezes não só com os jogadores de azul equipados. O Varzim queixou-se publicamente de atos nocivos testemunhando os seus protestos com a montagem de um vídeo bem elucidativo, para que o “mundo do futebol” fique a par do que se passou no sábado nas “barbas” dos varzinistas e dentro do seu próprio Estádio. Mas será caso para se dizer: isso valerá alguma coisa para se alertar os senhores mandões da bola? Basta dizer que o adversário dos varzinistas já é useiro e vezeiro em tristes atitudes como estas, em busca os seus anseios, havendo registos a testemunhar, quer dentro dos seus domínios quer em casa alheia, quantas vezes ante a benevolência da justiça futebolística do distrito ou até nacional. Mas está tudo bem, siga a rusga, até que haja alguém que tenha mão firme para dar mais segurança (e também valor competitivo) ao futebol que temos em variados quadrantes. Caso contrário, nada feito se deixarem correr o marfim.

Foto: FPF

Tudo o que se aponta serviu para tornar a viragem do mês de setembro, recheada de dores, nesta terra de brandos costumes.

Opinião Luís Leal – ‘O Meu Cantinho’