Os fios do Aqueduto

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Já muito se desfiou sobre o aqueduto do mosteiro ou o aqueduto de Santa Clara como também é conhecido.

Sabemos que a ideia da construção nasceu com D. Afonso Sanches, Senhor de Albuquerque (filho ilegítimo e mais velho de D. Dinis) e de sua mulher D. Teresa Martins neta materna de D. Sancho IV e filha do 1º Conde de Barcelos, o senhorio de Varazim de Jusão (Póvoa de Varzim) e Vila do Conde.1

Após a fundação do mosteiro, aperceberam-se de que para a água chegar à casa conventual, teria de ser descoberta uma solução urgente. Estava mais do que provado que as clarissas não poderiam depender eternamente dos cântaros, trazidos diariamente pelos serviçais.

A construção propriamente dita, começou pela ordem da Abadessa D. Maria de Meneses, em 1626 e depois de muitos percalços, a tão preciosa água chegou ao Convento no dia vinte de outubro de 1714.

Os fios eram de água e de ouro como nos diz Maia: “Depressa se aperceberam as freiras da impossibilidade de entreter nos claustros aquele fio de água a correr, sem outro fio de ouro a correr constantemente também para fora do convento.”2

Através do Decreto Lei de dezasseis de junho de 1910, o aqueduto foi considerado Monumento Nacional. No entanto, nem mesmo essa classificação, o salvou de inúmeras fatalidades. Desde tempestades antigas como a de um furacão em 1794 que atirou por terra 46 arcos, ou das apropriações dos arcos como suporte de muros privados, ou o roubo constante das pias, das pedras e o desvio das águas.

Ao longo da sua grandiosa construção, foram imensos os gastos, as dificuldades, o desagrado de muitos proprietários que viam os seus terrenos partidos a meio. Inúmeras as indemnizações pagas e as discussões ganhas, a mudança de mestres pedreiros, até o projeto se tornar uma realidade.

Nem os “homens dos arcos” nas suas limpezas, conseguiram que a água corresse livremente. Os pescadores poveiros achavam que o aqueduto seria uma barreira entre o bem e o mal não sendo de bom tom, as donzelas por lá andarem. Hoje cada vez mais caminhantes anseiam poder percorrer todo o seu caminho desde Terroso até ao Mosteiro de Santa Clara. Os tempos mudam.

O aqueduto, património imponente que tal fio, atravessa dois concelhos mantém-se de pé. Os seus arcos de volta perfeita, ligados uns aos outros como um novelo, fazem parte de uma história que é de todos.

Em fios de vida, as pombas, permanentes moradores não o abandonam.

Olhando o aqueduto, as pessoas refletem nas próprias vidas, pois enquanto houver fios que nos segurem cá estaremos.

 

1  AZEVEDO, José de – Subsídios para a História do Aqueduto de Vila do Conde – 50º Aniversário da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde – 1988. Pág. 26.

2  MAIA, Luís da Costa – O Aqueduto do Mosteiro, In: Ilustração Vilacondense, mensário dirigido por J. M. Sobrinho, Vila do Conde, 1910.